
Até certo tempo as histórias em quadrinhos só conheciam dois tipos de heróis; aqueles com super-poderes e alguma fraqueza facilmente explorável pelos vilões (super-homem), ou aqueles que não tinham poderes e apanhavam a história inteira antes de dar cabo nos bandidos (Batman). Foi então que na década de oitenta chegou uma história que mudou tudo. Ela se chamava Watchmen, foi concebida por um dos maiores escritores de quadrinhos e trazia em seu enredo heróis sem poderes e com poderes, mas que sofriam conflitos tão humanos quanto era possível, o que cativou os leitores de tal forma que a indústria teve um dos seus maiores choques. A partir daí todos começaram a copiar (tanto bem quanto mal) esse estilo de se compor esses contos e seus personagens, mas o estrago estava feito e os quadrinhos nunca mais conseguiram se recompor, mesmo quando o próprio Alan Moore escreveu a história de um herói cheio de poderes e indestrutível, todos perceberam que o dano era maior que o remediável.

Conto isso para explicar por que Adrenalina é um bom filme. Estamos em uma época que fizeram com os filmes o mesmo que fizeram com os quadrinhos, mas de uma maneira mais amadora. Hoje em dia não há um herói que não tem conflitos internos e ao longo de uma projeção, mesmo que seja um filme de ação ininterrupta sempre veremos nosso herói “passando por um momento de grande angustia pessoal” (aposto que essas palavras podem ser encontradas exatamente dessa forma em qualquer roteiro de ação).
Desde a década de oitenta (sempre ela) não vemos um filme como é esse Adrenalina, onde um personagem sem escrúpulos passa o filme inteiro, correndo lutando e matando sem nenhuma explicação, a não ser salvar a própria pele.
Agora vem o ponto da mudança, aquilo que se perdeu com o tempo, isso não acontece para mostrar como um personagem deve ser, não é para mostrar o sadismo do nosso anti-herói, pelo contrário, tudo que é feito no filme tem tanta pretensão de mostrar como o personagem é psicologicamente quanto um jogo de Tetris tem de lhe mostrar os desejos e anseios dos quadrados coloridos.
Isso que falta nos filmes de hoje: um personagem que vê alguém morrer e nem liga porque ele não está correndo o filme inteiro pra isso, e se ele for se importar teremos mais 1 hora de projeção, no mínimo. Ele não quer saber quem ferrou com ele e porque, ele quer se salvar e matar o único que ele sabe que tem culpa, e se ele pegar mais o cara que mandou o “bandido” atrás dele é apenas bônus.

Sabemos que vai ser assim, certo? Tem que ser assim, é um filme de ação, queremos isso. Se ele tem escrúpulos ou é um idiota completo é problema dele, contanto que eu veja pancadaria comendo solta, mulheres bonitas (afinal esse é um filme pra homens) e uma boa dose de honestidade , já que sabemos que filmes assim não são para ser levados a sério, e o final da projeção entrega isso de bandeja. Vá ver esse filme, ria com o ridículo que ele passa e com a cara-de-pau do “mocinho”. Depois saía do cinema com o coração cheio de Adrenalina, pois assim você saberá que o filme foi bom, afinal estávamos correndo com o cara dentro daquela sala, mesmo não concordando com o que ele fazia.
Logo, saiba que filmes assim são como Alan Moore mostrando que dá para se criar um herói perfeito num mundo que acha que o melhor é um herói que tem sentimentos, é um sopro de ar fresco, mas que pode se perder no meio de tanta “tendência”. Mas não vá acreditando que você irá encontrar algo com a profundidade e a sutileza de Alan Moore, isso ia ser pedir demais.
(Em tempo, a trama é tão simples que se torna óbvio tudo que ocorre no filme e de tão acostumados que estamos com o jeito de se fazer cinema que pode ser que se pergunte no meio da projeção: “Por que não ir atrás de tal pessoa ou tal coisa?” Acredite é melhor do jeito que o filme é. Além disso, não irei explicar a trama, pois ela só está ali para dar a partida no filme e se torna inútil em 3 minutos ou menos).
0 Comments